
“Eu não quero viver nenhum dia que não possa ser objeto de orgulho. Peço a Deus que não me dê nenhum tempo de vida a mais, a não ser que eu possa me orgulhar dele.”
As 14h41m de uma terça-feira, 29 de março, há um ano, parava de bater o coração de José Alencar Gomes da Silva, deixando milhões de brasileiros entristecidos. O homem que pedia a Deus para não ter um só dia de vida que não fosse digno de orgulho, morria deixando a certeza de que seu desejo fora atendido.
Presidente de honra do PRB, vice-presidente da República, senador por Minas Gerais, um dos maiores empresários do mundo no ramo da indústria têxtil. Tudo em Alencar era singular, inclusive sua simplicidade. Gostava de ser chamado de Zé, como um homem do povo que sempre foi e com o qual sempre se identificou. “É impressionante como o legado de um homem é capaz de alicerçar uma instituição como um partido político. Todo o ideal do PRB de respeito com a coisa pública, de transparência e de integridade política é fruto de José Alencar. É herança de seu modo de fazer política”, lembrou o presidente nacional do Partido Republicano Brasileiro, Marcos Pereira.
“Durante meses tentamos convencer o Zé Alencar a fundar o partido conosco, mas ele sofria assédio de quase todas as legendas, inclusive as maiores, como o PT e o PMDB. E ele veio com a gente, e fundamos juntos, eu, ele e o deputado federal Vitor Paulo, o PRB”, lembrou o ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, acrescentando: “Ele me disse: ‘Crivella, vou para o seu partido, não sei nem se o presidente Lula vai me escolher de novo para ser o vice, mas eu quero deixar um exemplo’. E deixou não só um exemplo, mas um legado de ética e compromisso com os mais humildes. Além de uma grande lealdade ao presidente Lula. Não foi à toa que Lula chorou tanto quando ele morreu, porque sabia que estava perdendo um grande amigo”, recordou o ministro.
Um dos republicanos que teve maior proximidade com José Alencar no partido, o deputado federal Vitor Paulo (RJ), primeiro presidente do PRB, ainda se emociona ao falar do então correligionário: “José Alencar foi um dos grandes modelos de homem público deste País. É lamentável que o Brasil tenha perdido um brasileiro verdadeiramente identificado com a nossa gente, comprometido com a construção de uma sociedade mais justa e apegado aos valores democráticos e familiares, bem como, aos ideais republicanos. Tê-lo como presidente de Honra do PRB foi um aprendizado que permanece como uma força de inspiração para toda a nossa bancada e membros.”
“Espero que tenhamos aprendido o suficiente, de forma a manter o legado de correção, de ética, de respeito que nosso presidente de honra deixou para o Brasil. A experiência de ter convivido com o Zé, com sua sabedoria e sua generosidade nos motiva a fazer um partido digno de ter como presidente de honra um nome de tamanha grandeza”, destacou o líder do PRB na Câmara, deputado Antônio Bulhões, em discurso no plenário.
História
José Alencar nasceu em Itamuri, um povoado perto de Muriaé (cidade a 300 quilômetros de Belo Horizonte) em 17 de outubro de 1931. Era o décimo primeiro dos 14 filhos de Dolores Peres Gomes da Silva e Antônio Gomes da Silva. Começou a trabalhar aos sete anos como vendedor em uma loja do pai. Aos 15, deixou a família e foi trabalhar como balconista em uma loja de tecidos. Aos 17 anos, partiu novamente para ser vendedor em Caratinga, outra cidade do interior mineiro, onde, ainda menor, já era financeiramente livre.
Com dinheiro emprestado pelo irmão mais velho, abriu sua própria loja em 1950. Com a morte do irmão Geraldo, em 1959, ele assumiu a empresa de tecidos União dos Cometas. Em 1963, fundou a Companhia Industrial de Roupas União dos Cometas e deu o nome de Wembley Roupas S.A. Quatro anos mais tarde, criou a Coteminas (Companhia de Tecidos Norte de Minas) em Montes Claros. Em 1975, inaugurava a mais moderna fábrica de fiação do Brasil.
Hoje, a Coteminas tem filiais em Minas Gerais, Paraíba, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Argentina. A empresa, dona de quatro marcas, exporta de camisetas a roupões de banho para Estados Unidos, Europa e América do Sul.
Alencar iniciou sua carreira política após ser presidente da Federação de Indústria de Minas Gerais, estado que o alçou a posição de senador da República com mais de três milhões de votos. O mineiro discreto ganhava cada vez mais projeção e chamava a atenção de um ex-operário em uma dobradinha que faria história.
Reconhecida liderança entre a classe trabalhadora e os movimentos sociais, Lula ainda enfrentava dificuldades para vencer a resistência dos empresários. O papel de Zé Alencar como avalista de um presidente que seria revolucionário sem ser incendiário foi fundamental para superar as desconfianças.
A relação política evoluiu para uma amizade sólida. Em março do ano passado, Lula não conteve as lagrimas ao falar pela primeira vez sobre a morte do amigo: “Aos 65 anos de idade, conheço poucos seres humanos que têm a alma de José Alencar, a bondade de José Alencar, a lealdade de José Alencar. Eu não acreditava que existisse, no mundo, um presidente que tivesse um vice como tive o prazer de ter o José de Alencar.”
Dono de convicções fortes, Zé Alencar não poupava as criticas até mesmo a aliados, quando discordava deles. Foi assim com o então ministro da Fazenda Antônio Pallocci, que insistia em manter a política de juros altos para conter a inflação. Entretanto, humildemente, sempre se considerou um coadjuvante, embora por diversas vezes brilhasse no palco político: “É verdade que vice não manda nada e, quando a causa é boa, só pede. Mas pede com empenho.”
Empenho! Talvez, o aspecto da vida de Alencar que mais chamou a atenção dos brasileiros foi sua capacidade de enfrentar e resistir à doença que minava gradativamente seu corpo. Durante mais de dez anos, Zé lutou contra o câncer. A persistência e a esperança com que sempre lidou com a doença e o tratamento prolongado fizeram de sua trajetória um exemplo para muitos brasileiros.
Durante os oito anos em que esteve no governo, o então vice-presidente assumiu o comando do País em ao menos 130 ocasiões, durante viagens internacionais de Lula. Alencar presidiu o País por mais de 400 dias ao longo dos quais deixou sua marca com medidas como a autorização do plantio da soja transgênica no Brasil, em setembro de 2003.
Foi ele também quem decretou luto oficial de três dias no Brasil, em junho de 2009, após a tragédia do voo 447 da Air France, que caiu no oceano Atlântico quando fazia o trajeto Rio de Janeiro-Paris, matando 228 pessoas.
Mas, mesmo a mais robusta rocha cede frente às intempéries. E assim, uma década e 17 cirurgias depois de descobrir a doença, José Alencar falecia. Deixou viúva, Mariza Campos Gomes da Silva, três filhos (Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia) e o exemplo de vida de quem acredita que só o trabalho enobrece: “Uma das maiores forças da vida é o trabalho. Você precisa, para gostar de viver, de motivação. E a motivação advém do trabalho.”
Presidente de honra do PRB, vice-presidente da República, senador por Minas Gerais, um dos maiores empresários do mundo no ramo da indústria têxtil. Tudo em Alencar era singular, inclusive sua simplicidade. Gostava de ser chamado de Zé, como um homem do povo que sempre foi e com o qual sempre se identificou. “É impressionante como o legado de um homem é capaz de alicerçar uma instituição como um partido político. Todo o ideal do PRB de respeito com a coisa pública, de transparência e de integridade política é fruto de José Alencar. É herança de seu modo de fazer política”, lembrou o presidente nacional do Partido Republicano Brasileiro, Marcos Pereira.
“Durante meses tentamos convencer o Zé Alencar a fundar o partido conosco, mas ele sofria assédio de quase todas as legendas, inclusive as maiores, como o PT e o PMDB. E ele veio com a gente, e fundamos juntos, eu, ele e o deputado federal Vitor Paulo, o PRB”, lembrou o ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, acrescentando: “Ele me disse: ‘Crivella, vou para o seu partido, não sei nem se o presidente Lula vai me escolher de novo para ser o vice, mas eu quero deixar um exemplo’. E deixou não só um exemplo, mas um legado de ética e compromisso com os mais humildes. Além de uma grande lealdade ao presidente Lula. Não foi à toa que Lula chorou tanto quando ele morreu, porque sabia que estava perdendo um grande amigo”, recordou o ministro.
Um dos republicanos que teve maior proximidade com José Alencar no partido, o deputado federal Vitor Paulo (RJ), primeiro presidente do PRB, ainda se emociona ao falar do então correligionário: “José Alencar foi um dos grandes modelos de homem público deste País. É lamentável que o Brasil tenha perdido um brasileiro verdadeiramente identificado com a nossa gente, comprometido com a construção de uma sociedade mais justa e apegado aos valores democráticos e familiares, bem como, aos ideais republicanos. Tê-lo como presidente de Honra do PRB foi um aprendizado que permanece como uma força de inspiração para toda a nossa bancada e membros.”
“Espero que tenhamos aprendido o suficiente, de forma a manter o legado de correção, de ética, de respeito que nosso presidente de honra deixou para o Brasil. A experiência de ter convivido com o Zé, com sua sabedoria e sua generosidade nos motiva a fazer um partido digno de ter como presidente de honra um nome de tamanha grandeza”, destacou o líder do PRB na Câmara, deputado Antônio Bulhões, em discurso no plenário.
História
José Alencar nasceu em Itamuri, um povoado perto de Muriaé (cidade a 300 quilômetros de Belo Horizonte) em 17 de outubro de 1931. Era o décimo primeiro dos 14 filhos de Dolores Peres Gomes da Silva e Antônio Gomes da Silva. Começou a trabalhar aos sete anos como vendedor em uma loja do pai. Aos 15, deixou a família e foi trabalhar como balconista em uma loja de tecidos. Aos 17 anos, partiu novamente para ser vendedor em Caratinga, outra cidade do interior mineiro, onde, ainda menor, já era financeiramente livre.
Com dinheiro emprestado pelo irmão mais velho, abriu sua própria loja em 1950. Com a morte do irmão Geraldo, em 1959, ele assumiu a empresa de tecidos União dos Cometas. Em 1963, fundou a Companhia Industrial de Roupas União dos Cometas e deu o nome de Wembley Roupas S.A. Quatro anos mais tarde, criou a Coteminas (Companhia de Tecidos Norte de Minas) em Montes Claros. Em 1975, inaugurava a mais moderna fábrica de fiação do Brasil.
Hoje, a Coteminas tem filiais em Minas Gerais, Paraíba, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Argentina. A empresa, dona de quatro marcas, exporta de camisetas a roupões de banho para Estados Unidos, Europa e América do Sul.
Alencar iniciou sua carreira política após ser presidente da Federação de Indústria de Minas Gerais, estado que o alçou a posição de senador da República com mais de três milhões de votos. O mineiro discreto ganhava cada vez mais projeção e chamava a atenção de um ex-operário em uma dobradinha que faria história.
Reconhecida liderança entre a classe trabalhadora e os movimentos sociais, Lula ainda enfrentava dificuldades para vencer a resistência dos empresários. O papel de Zé Alencar como avalista de um presidente que seria revolucionário sem ser incendiário foi fundamental para superar as desconfianças.
A relação política evoluiu para uma amizade sólida. Em março do ano passado, Lula não conteve as lagrimas ao falar pela primeira vez sobre a morte do amigo: “Aos 65 anos de idade, conheço poucos seres humanos que têm a alma de José Alencar, a bondade de José Alencar, a lealdade de José Alencar. Eu não acreditava que existisse, no mundo, um presidente que tivesse um vice como tive o prazer de ter o José de Alencar.”
Dono de convicções fortes, Zé Alencar não poupava as criticas até mesmo a aliados, quando discordava deles. Foi assim com o então ministro da Fazenda Antônio Pallocci, que insistia em manter a política de juros altos para conter a inflação. Entretanto, humildemente, sempre se considerou um coadjuvante, embora por diversas vezes brilhasse no palco político: “É verdade que vice não manda nada e, quando a causa é boa, só pede. Mas pede com empenho.”
Empenho! Talvez, o aspecto da vida de Alencar que mais chamou a atenção dos brasileiros foi sua capacidade de enfrentar e resistir à doença que minava gradativamente seu corpo. Durante mais de dez anos, Zé lutou contra o câncer. A persistência e a esperança com que sempre lidou com a doença e o tratamento prolongado fizeram de sua trajetória um exemplo para muitos brasileiros.
Durante os oito anos em que esteve no governo, o então vice-presidente assumiu o comando do País em ao menos 130 ocasiões, durante viagens internacionais de Lula. Alencar presidiu o País por mais de 400 dias ao longo dos quais deixou sua marca com medidas como a autorização do plantio da soja transgênica no Brasil, em setembro de 2003.
Foi ele também quem decretou luto oficial de três dias no Brasil, em junho de 2009, após a tragédia do voo 447 da Air France, que caiu no oceano Atlântico quando fazia o trajeto Rio de Janeiro-Paris, matando 228 pessoas.
Mas, mesmo a mais robusta rocha cede frente às intempéries. E assim, uma década e 17 cirurgias depois de descobrir a doença, José Alencar falecia. Deixou viúva, Mariza Campos Gomes da Silva, três filhos (Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia) e o exemplo de vida de quem acredita que só o trabalho enobrece: “Uma das maiores forças da vida é o trabalho. Você precisa, para gostar de viver, de motivação. E a motivação advém do trabalho.”

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